Armando Soares #16: Servos amazônidas e triste memória histórica

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Relatório elaborado em passado recente pela estatal Vale do Rio Doce de mineração exemplifica o saque sofisticado e a ação endocolonialista das elites dominantes brasileiras na Amazônia. A empresa estatal Vale classificou os municípios paraenses pejorativamente como “sonolentos”, o que não deixa de ser uma verdade, mas que tem também uma explicação. Quem estudou um pouco a Amazônia sabe que o social amazônico foi submetido secularmente a saques sucessivos, a discriminações de várias naturezas. Ora, quem sofre permanentemente saques e é discriminado sofre uma deformação e reage diferente de uma pessoa que nunca teve esses problemas. O mínimo que aconteceu ao homem amazônida é que foi reduzido a serviçais, a eunucos culturais, um castrado cultural. Como bem evidenciou Edward W. Said, o “mito do nativo indolente é sinônimo de dominação, e a dominação baseia-se no poder.” O comportamento da elite dominante brasileira localizada no sul/sudeste, por mais sincera que possa ter sido, reflete uma cultura colonialista, se enquadra no endocolonialismo no que diz respeito à Amazônia. O discurso e as intenções das elites brasileiras, nunca foram sinceros e quando transformados em planos, programas ou projetos de desenvolvimento, funcionam como vazo comunicante para despejar recursos públicos nas mãos de maus políticos e de empresários piratas, ou seja, se transforma em veículo de saque e de exploração. Em síntese, em relação à Amazônia, nossa elite política age como colonizadora e o povo amazônida responde, mutilado sociologicamente, como colonizado, subjugado pelo poder e pelas vicissitudes, anomalias que explica a indolência e a “sonolência”.

A partir das experiências desastrosas postas em prática para planificar economicamente à Amazônia (foram muitas), podemos afirmar sem receio de cometer erro de avaliação, que uma das causas principais da estagnação e do saque que se realiza na região, resulta da fragilidade e inadequação de políticas governamentais para a região e da ausência de governo na região, isto porque já ficou exaustivamente comprovada que planificar para a Amazônia, uma simples referência geográfica, é uma estupidez das maiores, uma burrice sem tamanho. A Amazônia, quando se trata de estados amazônicos autônomos, não é geograficamente igual. Quando se tenta impor uma planificação de cima para baixo, está se cometendo uma violência contra a república federativa, e, consequentemente contra a constituição. Essa violência somada ao tamanho da Amazônia geográfica são as principais causas do fracasso das diversas tentativas de planificar a Amazônia. Outra causa que pesou foi querer introduzir, através da planificação, um modelo anticapitalista e ambientalista para região. O modelo econômico brasileiro é capitalista aos pedaços; por isso nunca funcionou e nunca vai funcionar.. Porque querer empurrar na Amazônia uma economia planificada criada nos escritórios do G-7, os sete países mais ricos do planeta? Sabemos as razões. Para negociar interesses mesquinhos, tanto importa se essas negociações trazem prejuízos à Amazônia e ao Brasil.

A Política Ambiental brasileira é um dessas negociações tramadas nos gabinetes do G-7.  Ela é anunciada como algo de grande importância para a Amazônia e o Brasil, mas só atende os interesses dos países colonialistas, e se presta para esconder interesses ocultos que comprometem a soberania amazônica e brasileira e, se bem analisada. Uma forma sutil de vender a Amazônia e amazônidas no médio e longo prazo. Anunciada e proposta manu militari pelo governo brasileiro, como sempre acontece quando se trata da Amazônia, logo foi integrada à política de desenvolvimento regional (que nunca existiu, é apenas papel e discurso), teve e continua a ter, profundas repercussões na vida dos amazônidas, ou seja, se repete a ação endocolonialista que entregou a borracha aos ingleses, se escravizou seringueiros para sustentar a II Guerra Mundial, para premiar o Rio de Janeiro com a construção da Usina de Volta Redonda, no governo de Getúlio Vargas que sempre ignorou a Amazônia.

A proposta de conservar a floresta amazônica originária nos países colonialistas, EUA e Europa, cheirava a dólar e atraia os piratas, bilhões de dólares na Amazônia, o que deixou o governo Collor eufórico, pois a ideia era de que esses dólares saíssem da Amazônia através de vasos comunicantes para outras regiões e utilizações, ou seja, a Amazônia mais uma vez serviria para produto de troca, como sempre foi, o almoxarifado do Brasil. Sabiam os amazônidas lúcidos que decisões dessa natureza poderiam (como vem acontecendo), estabelecer grandes modificações no universo ambiental e socioeconômico da região. A proposta ignorou o social e priorizou apenas a floresta e as riquezas do subsolo. O objetivo era transformar a Amazônia em patrimônio mundial e reserva estratégica, fonte riquezas naturais para uso das grandes potências e países ricos, quando conviesse e se fizesse necessário. A pauperização da região, os conflitos de toda a natureza e o crescimento geométrico do narcotráfico, vem sendo alimentadas por políticas públicas equivocadas, tipo a da conservação da floresta. Tudo consequência do tratamento discriminatório de uma elite política e econômica que transformou o amazônida em servo de seus interesses.

As tentativas de internacionalização da Amazônia, mais realçadas por historiadores foram: (1) proposta de criação do Instituto da Hileia Amazônica, que encontrou grande oposição por parte de Arthur Bernardes, então deputado federal, e Augusto Meira, senador pelo Pará; (2) projeto científico da Academia de Ciências de Washington (1965); (3) projeto do Lago Amazônico, do Hudson Institute (1967/68), que faria sumir do mapa da Amazônia, cidades como Santarém, Alenquer, Óbidos, Faro, Juruti, Parintins, Itacoatiara e parte de Manaus. A oposição a duas últimas tentativas esteve sob a liderança de Arthur César Ferreira Reis. No presente poderíamos incluir a Proposta de Conservação da Floresta Amazônica; a Lei de Patentes elaborada pelo governo; o Acordo firmado entre a EMBRAPA e o Instituto Malaio de Pesquisa da Borracha (RRIM) que oficializa o saque da seringueira e outras espécies florestais, a que se associa a Política Nacional Integrada para a Amazônia dentro do programa de abertura da economia brasileira, considerando-se a prioridade para grandes projetos com apoio de capital estrangeiro e o esquecimento da civilização amazônida, única força capaz de manter íntegra a região, cenário criminoso enriquecido com a política ambiental do governo Lula que engessou territorial e economicamente definitivamente a Amazônia para atender interesses das nações ricas dominadas por grandes corporações econômicas. 

Com relação à Amazônia e seu quadro de estagnação social, econômica e cultural imposta pelas forças políticas do sul/sudeste, as elites retrógadas, é preciso realçar que não é o avanço da civilização que ameaça a região, pois a civilização não avançou na Amazônia, mas sim a ação dos países que sempre nos exploraram e do governo brasileiro que sempre ignorou a região e os amazônidas. A Amazônia só serviu como produto de troca para negociar com outros povos. Primeiro, desde o inicio da nossa histórica; em seguida para realizar experiências desastrosas.

O que precisa estar bem consolidado é que o subdesenvolvimento da Amazônia, da sua estagnação foi imposta no passado de quando da transferência programada da seringueira para o sudeste asiático. A partir daí a região ficou sem força para se desenvolver. As questões ecológicas de outras regiões foram trazidas para a Amazônia para obstaculizar o seu desenvolvimento, e não por outra razão.  Com certeza o planeta Terra não está doente, se é que está doente. A Amazônia tem a melhor saúde ambiental e não exporta nenhuma doença ambiental. Tudo o mais é pura sacanagem que os brasileiros aceitam por pura idiotice.

Para dar início a mudança desse quadro é preciso haver uma transformação urgente no comportamento e consciência dos governantes e do uso que se faz do Estado, chamado pelos donos do poder impropriamente de democrático, quando na realidade o Estado vem sendo utilizado para confinar o povo e ser contado, tributado, educado e dominado em locais regulamentados (a casa, a escola, o asilo, o local do trabalho), transformando homens e mulheres brasileiros em verdadeiros servos a serviço de uma casta improdutiva e insensível às suas necessidades, ou seja, o povo servindo aos governantes e não os governantes servindo o povo. O que o governo brasileiro pratica no Brasil pode ser qualquer coisa menos democracia e respeito à cidadania, atributos essenciais à prática de qualquer democracia que se respeite.

A Amazônia até agora só se prestou para o saque e produto de troca. Os Estados amazônicos ainda não foram assimilados pela república e não têm autonomia, a não ser no papel. Ou seja, configura-se um caso típico de caos institucional.

Armando Soares – economista

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