Categorias
Dicas e Manejos

8 fundamentos sobre Manejo Integrado de Pragas que você ainda não aprendeu

O manejo integrado de pragas ou MIP, tem se tornado uma alternativa bastante eficaz no combate de pragas. As lavouras são muito afetadas pelas pragas, o que tira o sono de qualquer agricultor. Pragas agrícolas são sinônimos de perdas de produção e lucro.

Então, como isso pode ser minimizado? Você pode utilizar o planejamento agrícola, que é o ato de planejar pensando no seu objetivo agrícola . O planejamento agrícola é importante para você se antecipar e se preparar contra os inimigos naturais que podem surgir na sua lavoura. Assim, no planejamento de sua lavoura você pode, e deve,  usar o manejo integrado de pragas (MIP).

A partir da implantação do MIP é possível reduzir as pulverizações com inseticidas em até 68%.

Milho atacado por lagarta do cartucho
Lagarta-do-cartucho é uma das pragas chaves ou  principais pragas em milho, podendo reduzir até 55,6% dos rendimentos. (Fonte: Ivan Cruz em A Granja)

Mas, o que é este tipo de manejo?

1. O que é manejo integrado de pragas (MIP)?

É a utilização de diversas técnicas de  manejo para manter a população da praga abaixo do nível de dano econômico, relacionando com aspectos econômicos, sociais e ecológicos. Tomar uma decisão não é uma tarefa nada fácil. E o MIP pode te auxiliar nessa tarefa. Você deve estar se perguntando o que são essas diversas técnicas de manejo? E como posso utilizá-las na minha lavoura?

2. Algumas técnicas de manejo utilizadas no MIP

Primeiramente, você utiliza qual tipo de manejo para controlar pragas em sua lavoura? O primeiro manejo que veio à sua cabeça certamente foi o controle químico. Mas, você pode utilizar outros tipos de manejo em sua cultura.

manejo integrado de pragas
(Fonte: Amici mecanização agrícola).

Um bom exemplo de controle integrado é o controle biológico, que utiliza organismos benéficos para o controle de pragas, ou seja, utiliza um inimigo natural para reduzir a ocorrência da praga em sua lavoura. Um exemplo de controle biológico no manejo integrado de pragas é a utilização do ácaro predador no manejo do ácaro rajado em diversas culturas, como feijão, cultura do milho e soja.

controle biológico e manejo integrado de pragas
(Fonte: Governo do Estado de São Paulo, APTA e Instituto Agronômico).

Além disso, você pode utilizar outras técnicas integradas de manejo. Tais como: rotação de culturas, mudas sadias, eliminação de plantas doentes, época de plantio e o controle genético (variedades resistentes).

Esses métodos são utilizados principalmente, antes ou na instalação da lavoura, por isso, o MIP faz parte do planejamento agrícola, como já citei lá no começo do texto. Claro, que você pode utilizar o controle químico, mas deve realizar as pulverizações de uma forma mais consciente e racional. E o MIP pode te ajudar a realizar essas pulverizações de forma racional, veja como a seguir:

3. Mantenha as pragas abaixo do Nível de Dano Econômico

Você deve estar se perguntando, como assim, “manter a praga abaixo do nível de dano econômico”? Nível de dano econômico é a menor densidade populacional da praga que causa dano econômico. Devemos realizar o controle da praga quando a população da mesma alcançar o “Nível de Controle” (NC),  assim não haverá nenhum dano econômico para a cultura.

nivel de dano economico
(Fonte: [Infográfico] Tudo o que você precisa saber sobre Manejo Integrado de Pragas ).

No MIP é necessário o monitoramento da praga para você saber quando atingiu o NC. E antes de falar sobre monitoramento das pragas, vamos falar de alguns benefícios que o MIP pode trazer para sua lavoura.

4. Benefícios do Manejo Integrado de Pragas

Manejar sua lavoura no momento certo pode reduzir o custo de produção, através da utilização de menos aplicações de defensivos agrícolas. Com este tipo de manejo há menores riscos para o meio ambiente e esta prática pode ser utilizada em propriedades de qualquer tamanho. Pode reduzir o número de aplicações e diminuir 8% (cerca de 70 mil reais) do seu custo de produção na sua lavoura de soja com a utilização do MIP .

lagarta em plântula de soja
(Fonte: Mais Soja)

Embrapa e Emater apontaram que na safra 2016/2017 nas lavouras de soja no Paraná, o manejo integrado de pragas e doenças reduziu o uso de defensivos em 45%. Reduzir o custo de produção torna seu negócio mais lucrativo. Para conseguir esses resultados você deve seguir as etapas do MIP.

5. Etapas Fundamentais para você seguir

Para implementar o MIP algumas etapas a serem seguidas são:

  1. Avaliação do ecossistema : conheça as pragas da cultura e qual seu nível pelo monitoramento;

  2. Tomada de decisão : com o monitoramento e o nível de dano econômico saiba qual é o momento certo para efetuar o controle;

  3. Escolha da estratégia de controle a ser utilizada na sua lavoura: avalie suas opções de controle após o estabelecimento da praga na lavoura: controle biológico ou químico.

Além disso, a regra número 1 é o planejamento da sua lavoura, primordial para não permitir que a praga se estabeleça na cultura. E regra número 2: você deve conhecer sua lavoura, quais são as pragas existentes, áreas com maior incidência de pragas e qual a incidência. Para isso, o monitoramento é essencial.

6. Monitoramento de sua Lavoura

Um dos pilares do MIP é o monitoramento da lavoura para determinar o momento correto para manejar a praga. Para isso, há necessidade de realizar o monitoramento frequentemente. Primeiramente, para o monitoramento, você deve conhecer as pragas que atacam sua cultura.

O pano de batida é um dos métodos de monitoramento que você pode usar na sua propriedade. Aliás, é o método mais utilizado de monitoramento.

metodo-pano-de-batida
Método de pano de batida utilizado para o monitoramento de pragas (dimensões de 1×1,5m). (Fonte: [Infográfico] Tudo o que você precisa saber sobre Manejo Integrado de Pragas )

Você pode fazer planilhas para anotar os dados do monitoramento.

ficha MIP
Exemplo de planilha para o monitoramento da praga em sua lavoura, amostrando 10 pontos. (Fonte: Fundação MS)

Ou você pode usar um aplicativo que guarda seus dados de maneira muito mais segura.

Monitoramento Aegro
(Fonte: Aegro)

O monitoramento com mapas de danos pode ser feito digitalmente e diretamente na área pelos funcionários da fazenda e você ainda pode conferir quando e onde esse monitoramento foi realizado. Após o monitoramento da cultura, você deve procurar qual o nível de controle para cada praga.

MIP na soja
(Fonte: Fundação MS)

Quando a praga atingir o NC , você deve utilizar algum método de controle em sua lavoura para não ter perdas de produção. Há várias publicações gratuitas que ajudam você a determinar quais as pragas que podem ocorrer em sua lavoura. Algumas publicações para a cultura da soja:

Artropodes soja
(Fonte: Embrapa clique aqui para acessar)
Manual de Pragas Soja
(Fonte : Agrolink clique aqui para acessar)

Nesta publicação da Fundação MS, você encontra sobre a identificação da praga, seu ciclo de vida e o dano na cultura. A identificação com foto da praga te ajuda a compreender seu comportamento e ver se há infestação desse inseto na sua lavoura.

falsa medideira
(Fonte: Fundação MS  clique aqui para acessar)

E também encontra o NC (Nível de Controle ou Nível de Ação de Controle), ou seja, qual a quantidade de insetos identificados no monitoramento indica que se deve fazer o controle.

falsa medideira

No caso da falsa-medideira, deve ser feito o controle quando for encontrado 40 lagartas grandes por pano de batida. Você já identificou a praga e descobriu que a infestação está em nível de controle, mas qual método de controle utilizar?

7. Métodos de Controle de Pragas. Qual medida de controle utilizar?

Para determinar qual tipo de medida utilizar, você pode consultar publicações, como as relatadas acima, que além da descrição da praga também mostra quais os métodos de manejo. E também consulte um engenheiro agrônomo para a prescrição de algum produto. Consultando o Agrofit , você consegue ver os produtos químicos e biológicos registrados para sua lavoura, a praga que o produto controla e a dose que deve ser utilizada do produto.

Você pode pesquisar os produtos por pragas (insetos, doenças e plantas daninhas), ingrediente ativo e produtos formulados.

agrofit-manejo-integrado-de-pragas

8. Manejo integrado de pragas e doenças

Os principais fundamentos do MIP são os mesmos para plantas daninhas e doenças. Porém, existe também o manejo integrado utilizado para doenças, o qual é chamado deMID (manejo integrado de doenças). Este tipo de manejo ainda é de pouca utilização para as doenças, em função do nível de dano econômico que ainda é difícil de ser medido. Isso porque, na maioria das vezes, quando se identifica uma doença em campo, esta já causou perdas de produção. Por isso, é difícil determinar qual é o nível de dano econômico para as doenças antes de ocorrer reduções de produtividade e, consequentemente, perdas econômicas. Mas, já existem algumas pesquisas para  aperfeiçoar o MID.

Para a ferrugem da soja, foram monitorados os esporos do patógeno Phakopsora pachyrhizi, para determinar a presença precoce do fungo e determinar quando utilizar fungicidas para esta doença.

Conclusão

Voltando a pergunta inicial, como posso minimizar perdas por pragas? Primeiramente, realize o planejamento de sua lavoura. O MIP faz parte deste planejamento. Realizando o manejo integrado de pragas, você saberá o momento certo de fazer o controle, reduzindo custo de produção e aumentando sua lucratividade. E com isso, ter sucesso com sua lavoura.

Fonte: Lavoura10

Categorias
Agricultura

Armadilhas na roça para combater a praga do milho

O produtor precisa ficar atento ao ataque de pragas na lavoura! A lagarta-do-cartucho do milho é a principal praga presente nas lavouras no momento em que o milho na fase vegetativa. “Para não comprometer a produtividade é preciso monitorar, para a correta tomada de decisão”, orienta a pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo, Simone Martins Mendes.

Atualmente, o milho transgênico com atividade inseticida, ou simplesmente milho Bt, está plantado em 5,3 milhões de hectares do país. Isso representa cerca de 82% das áreas de milho primeira safra, segundo levantamento realizado pela Céleres.

“Contudo, o uso dessa tecnologia em grande parte das lavouras não retira do produtor a tarefa de manter o monitoramento de pragas, sobretudo em função da quebra de resistência ou redução da eficiência do milho Bt sobre a lagarta-do-cartucho, o que já é realidade nas principais regiões produtoras de milho do país. Neste cenário, é fundamental manter a vigilância e o monitoramento nas lavouras”, afirma Simone Mendes.

Imagem relacionada
Fonte: Google

Segundo a pesquisadora, a presença desta praga pode atingir níveis que demandem medidas adicionais de controle. Isto pode ser feito por meio do controle biológico, com a liberação de insetos benéficos na lavoura, também conhecidos como inimigos naturais, a exemplo da vespinha Trichogramma, ou com o uso de bioinseticidas. Ou mesmo com o controle químico, com a aplicação de inseticidas. Essa medida de controle deve ser utilizada quando a ocorrência da praga atingir um nível em que cause prejuízos e que não seja mais viável o uso do controle biológico. Isso pode ser verificado a partir do monitoramento.

Basicamente, duas formas de monitoramento têm sido preconizadas: a primeira é o uso de armadilhas de feromônio, e a segunda, o monitoramento em campo. “No primeiro caso, a armadilha contém um dispositivo que exala o “cheiro” da mariposa fêmea da lagarta-do-cartucho para atrair o macho. Nesse caso, é preciso verificar as armadilhas com frequência, e, quando for observada a captura de três mariposas, é o sinal de que o nível crítico de infestação foi atingido. Aí o produtor precisa levar em consideração quais são as medidas de manejo a serem adotadas. Uma armadilha pode monitorar em torno de cinco hectares”, explica a pesquisadora .

Por sua vez, o monitoramento presencial no campo tem como foco as injúrias (folhas raspadas ou danificadas) causadas pela lagarta-do-cartucho nas plantas do milho. Nesse caso, ele precisa dividir as lavouras em talhões e adotar uma estratégia para o monitoramento. “É preciso ficar atento ao nível máximo de 20% de plantas com injúrias para que se decida pelo uso do controle químico”, orienta Mendes.

A partir deste momento, as plantas ficam maiores e se tornam menos vulneráveis à infestação da praga. “Além disso, quando a lagarta fica muito grande, é difícil atingi-la com qualquer medida de controle. Vale ressaltar que os danos causados pela lagarta-do-cartucho na planta podem levar a uma redução de aproximadamente 40% de produtividade”, diz Simone Mendes.

Fonte: Nordeste Rural

Categorias
Cursos e Concursos

Embrapa oferece curso sobre multiplicação de agentes de biocontrole – Embrapa

Foto: Arquivo Embrapa
Foto: Arquivo Embrapa

A multiplicação de agentes de biocontrole é fundamental para a produção comercial de biopesticidas. Como é um tema obrigatório para todos que desenvolvem produtos à base de agentes de biocontrole, a Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP) e a Embrapa Arroz e Feijão (Santo Antônio de Goiás, GO) promovem curso para apresentar e discutir as técnicas disponíveis para multiplicação de agentes de biocontrole, para estudantes de pós-graduação e profissionais da área de biocontrole, em 9 de dezembro de 2016, em Jaguariúna, SP, no auditório da Embrapa Meio Ambiente.

Conforme Gabriel Mascarin, doutor em Entomologia e analista A da Embrapa Arroz e Feijão e um dos coordenadores do curso, o controle biológico passa por um momento único de grande repercussão e expansão no mercado mundial de pesticidas, com uma taxa anual de crescimento de 15% e uma estimativa de vendas projetada para 4 bilhões de dólares no mercado fitossanitário de 2017.

Esta tática de controle é um componente indispensável em programas de manejo sustentável e integrado de pragas, tais como artrópodes (insetos e aracnídeos), plantas daninhas, nematoides fitoparasitos e fitopatógenos. Além disso, alguns desses agentes biológicos podem atuar como promotores de crescimento de plantas e, consequentemente, reduzir a utilização de adubos químicos sintéticos, explica Mascarin.

Neste contexto, empresas nacionais e multinacionais vêm investimento incessantemente em métodos de multiplicação e formulação destes agentes de biocontrole para atender a um mercado crescente. Entretanto, as tecnologias geradas dentro das empresas são, na sua grande maioria, protegidas por patentes ou sigilosas e, portanto, nem sempre estão disponíveis à comunidade científica. De acordo com um dos coordenadores do curso, Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, são limitados os estudos sobre o tema nas instituições públicas de pesquisa. E sugere que os órgãos de fomento à pesquisa criem programas específicos para estimular o desenvolvimento da área.

“Irei focar nos principais métodos de multiplicação in vivo e in vitro de agentes de biocontrole de origem microbiana, com especial ênfase dada aos fungos, bactérias e vírus, apresentando suas vantagens e desvantagens. Além disso, aspectos de formulação e estabilização de propágulos destes agentes microbianos serão abordados sucintamente, tendo por objetivo ilustrar processos de downstream em escala industrial de um biopesticida comercial”, diz Mascarin.

“Os métodos de multiplicação, formulação e estabilização a ser escolhidos dependerão diretamente da natureza do agente de biocontrole, do tipo de propágulo que se deseja produzir e do alvo que se pretende controlar. Não menos importante, os custos envolvendo mão-de-obra, espaço físico, tempo, energia e equipamentos, apenas para citar alguns, também influenciam na escolha da estratégia a ser adotada para multiplicação destes agentes microbianos benéficos”, enfatiza o pesquisador.

Durante o curso, exemplos práticos de produção e formulação de agentes microbianos serão apresentados e discutidos com os participantes. Portanto, pretende-se proporcionar uma visão geral e atualizada dos métodos de multiplicação e formulação de alguns dos principais agentes microbianos de biocontrole.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas diretamente no local do evento.
 

 

Cristina Tordin (MTB 28499)
Embrapa Meio Ambiente

Fonte: Embrapa

Banner rodapé fornecedor

Categorias
Meio Ambiente

Controle biológico: ciência a serviço da sustentabilidade – Embrapa

A Embrapa investe em pesquisas de controle biológico de pragas desde os anos 80. Essas mais de três décadas dedicadas a estudos científicos resultaram num sólido expertise que envolve cerca de 30 unidades de várias regiões brasileiras e mais de 300 projetos de pesquisa.

Foto: Francisco Schmidt
Foto: Francisco Schmidt

A premissa básica do controle biológico é controlar as pragas agrícolas e os insetos transmissores de doenças a partir do uso de seus inimigos naturais, que podem ser outros insetos benéficos, predadores, parasitóides, e microrganismos, como fungos, vírus e bactérias.

Trata-se de um método de controle racional e sadio, que tem como objetivo final utilizar esses inimigos naturais que não deixam resíduos nos alimentos e são inofensivos ao meio ambiente e à saúde da população.

Dessa forma, a pesquisa agropecuária espera contribuir para reduzir o uso de pesticidas químicos empregados no manejo integrado de pragas, colaborando para a melhoria da qualidade dos produtos agrícolas, redução da poluição ambiental, preservação dos recursos naturais e, portanto, para a sustentabilidade dos agroecossistemas.

Tendências do controle biológico no Brasil e no mundo

Se, por um lado, o Brasil comemora o fato de ser líder mundial no setor do agronegócio, por outro lado, essa liderança impacta numa dependência crescente de insumos importados, incluindo os agrotóxicos sintéticos, imputando ao País o triste predicado de ser também líder mundial no consumo desses produtos. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Brasil é responsável por 1/5 do consumo mundial de agrotóxicos, usando 19% dos agrotóxicos produzidos no mundo.  

O uso intensivo de agrotóxicos sintéticos na agricultura causa diversos problemas, como a contaminação dos alimentos, do solo, da água e dos animais; a intoxicação de agricultores; a resistência de pragas a princípios ativos; a intensificação do surgimento de doenças iatrogênicas; o desequilíbrio biológico, alterando a ciclagem de nutrientes e da matéria orgânica; a eliminação de organismos benéficos e a redução da biodiversidade.

Esses dados preocupam os diversos segmentos da sociedade e têm levado à uma demanda crescente por alternativas que atendam às restrições ambientais e às exigências dos consumidores. O controle biológico, inserido no manejo integrado de pragas, é uma das opções viáveis para atender aos anseios da sociedade na busca constante por soluções sustentáveis.

No Brasil, em 2010, o mercado de produtos de controle biológico foi aproximadamente de U$ 70 milhões, equivalente a 2% da venda do mercado de agrotóxicos sintéticos. Estima-se que a área tratada com agentes de controle biológico no Brasil seja ligeiramente inferior a 8 milhões de hectares/ano. Embora elevada em termos absolutos, a participação percentual ainda é tímida nas culturas para as quais há alternativas biológicas disponíveis.

O perfil atual da indústria de agentes de controle biológico inclui, em sua maioria, pequenas e médias empresas especializadas, poucas estabelecidas há mais de 10 anos. Apesar do predomínio das pequenas e médias empresas, grandes empresas, tradicionalmente líderes no mercado de agrotóxicos sintéticos, estão adquirindo ou reativando divisões relacionadas ao desenvolvimento de biopesticidas, em função da perspectiva de negócios no mercado brasileiro.

Frente ao cenário positivo, as pesquisas de controle biológico representam uma oportunidade para a inovação e competitividade na agricultura brasileira e atendem às perspectivas ambientais e ao uso sustentável dos serviços ambientais. Com esse mercado crescente, que deverá duplicar ou triplicar mundialmente nos próximos 10 anos, é provável que a demanda para aperfeiçoar os processos relacionados ao controle biológico também aumente, gerando oportunidades para a pesquisa e parcerias para a inovação nesse campo.

O controle biológico na Embrapa

A Embrapa é uma das protagonistas na área de controle biológico no Brasil, com muitos resultados de pesquisa básica gerados nas últimas três décadas por cerca de 30 de suas unidades de pesquisa em todo o Território Nacional. Uma das prioridades da Empresa hoje é agilizar a transferência dos conhecimentos e tecnologias gerados na área de controle biológico ao setor produtivo, a partir de parcerias público-privadas, de forma a ampliar a utilização de agentes de controle biológico e reduzir o uso de agrotóxicos sintéticos.

Uma das ações da Embrapa nesse sentido foi a criação do Portfólio Corporativo de Controle Biológico em 2013. O objetivo é otimizar as ações relacionadas à essa área de atuação, fazendo com que os resultados de pesquisa cheguem com mais rapidez e agilidade ao setor produtivo.

O Portfólio pretende organizar as ações de pesquisa dentro da Embrapa, integrando profissionais, recursos, serviços, infraestrutura e parceiros, de forma a incrementar as pesquisas de controle biológico no Brasil e consolidar o protagonismo da Embrapa junto ao setor produtivo.

Paralelamente, as projeções mercadológicas apontam para um cenário positivo e crescente de produtos biológicos destinados ao controle biológico de pragas, com perspectivas de que dobrem ou até tripliquem nos próximos 10 anos em escala global. Isso significa que as pesquisas na área de controle biológico representam uma oportunidade para a inovação e competitividade na agricultura brasileira e oportunidades de parcerias voltadas à inovação.

Para garantir a qualidade do conhecimento básico gerado na área de controle biológico, ao mesmo tempo em que prioriza a transferência de tecnologias aos produtores brasileiros, a Embrapa atua hoje nas seguintes frentes:

– Implementação do controle biológico no âmbito do manejo integrado de pragas
–  Utilização de técnicas de manejo cultural e do solo que favoreçam a ação dos agentes de controle biológico (insetos benéficos, predadores, parasitóides, e microrganismos, como fungos, vírus e bactérias com potencial patogênico sobre insetos-praga) introduzidos e de ocorrência natural
– Formação de profissionais para o desenvolvimento e uso do controle biológico e para a implantação da cultura de utilização dessa tecnologia
– Participação na elaboração de políticas públicas para incentivar a utilização de agentes de controle biológico, regulamentação de pesquisa, desenvolvimento e registro de produtos à base de agentes de controle biológico.
– Estímulo à criação de empresas incubadas para o desenvolvimento desses agentes
– Desenvolvimento de produtos biológicos, em conjunto com a iniciativa privada.

Principais desafios:

– Eliminar os fatores restritivos a expansão do controle biológico
– Quebrar o paradigma da utilização do controle biológico
– Proporcionar agilidade para a exploração dos agentes de controle biológico (em desenvolvimento ou na forma do potencial de suas coleções) na Embrapa.  

Vertentes

O Controle Biológico abrange cinco vertentes: biodiversidade, estratégias de desempenho de agentes de controle biológico, integração com ações de proteção de cultivos, impactos do uso desses agentes e a sua adoção no setor produtivo.

1) Biodiversidade – prospecção, conhecimento, conservação e valoração (espectro de atividade, biogeografia, metabólitos secundários, variabilidade genética) de agentes de controle biológico nativos e exóticos, de forma a constituir bancos de ativos tecnológicos.

2) Estratégias incrementais de desempenho de agentes de controle biológico nativos e exóticos– seleção estratégica; realização de análises de bioecologia com base em características ecológicas necessárias para boa persistência de sua atividade a campo (tolerância à alta ou baixa temperatura, resistência à seca, radiação UV, outros); definição dos estádios vulneráveis no ciclo de vida da praga alvo com vistas à ampliação das possibilidades de uso desses agentes; metodologias de produção em larga escala; formulação e avaliação da sua eficiência em relação aos insetos-alvo.

3) Integração das estratégias de proteção de cultivos – estimular técnicas de manejo que favoreçam a ação dos agentes introduzidos e de ocorrência natural.

4) Impactos do uso de agentes de controle biológico – avaliar os impactos ambientais, sociais e econômicos do uso de agentes de controle biológico, com base na sua especificidade e persistência (monitoramento da dinâmica populacional desses agentes antes e após liberação a campo).

5) Estratégias incrementais de adoção de agentes de controle biológico – formação de profissionais para o desenvolvimento e uso do controle biológico e definição de metodologias para a sua transferência ao setor produtivo, incluindo cooperativas e empresas agrícolas familiares.

Fernanda Diniz (MTB/DF 4685/89)
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia

Fonte: Embrapa

Categorias
Fatos e Acontecimentos

Pragas e doenças da cana estão entre os desafios para as usinas – Embrapa

Uma das demandas das usinas de cana-de-açúcar de Mato Grosso do Sul é entender melhor a dinâmica das pragas e doenças da cultura para realizar o controle e melhorar a produtividade. Com esse objetivo, foi realizado o 3º Seminário do 2ºCiclo de Seminários Agrícolas de 2016, na Embrapa Agropecuária Oeste, no dia 18 de agosto, durante todo o dia. A realização foi da Biosul e da Embrapa, com organização da TCH Gestão Agrícola, e apoio da Famasul, Fundação MS e Sulcanas.

Foto: Harley Nonato de Oliveira/Embrapa
Foto: Harley Nonato de Oliveira/Embrapa

O chefe geral da Embrapa Agropecuária Oeste, Guilherme Asmus, lembra que o levantamento das demandas e os debates gerados nesses seminários, contribuem para melhorar os processos produtivos da região. Erico Paredes, assessor técnico da Biosul, ressaltou a importância das parcerias para a realização do evento e da presença dos técnicos do Estado nos Seminários. “A rede entre os parceiros para os debates das demandas das usinas é uma forma de atendermos o setor sem sobrepor trabalhos.”

Controle biológico

O chefe adjunto de P&D da Embrapa Agropecuária Oeste, Harley Nonato de Oliveira, falou sobre a importância de se conhecer a qualidade dos parasitoides para o controle biológico de pragas a serem utilizados, inclusive dos processos da criação deles. Tal importância recai também sobre as usinas que têm ou vão montar o próprio laboratório, porque precisam conhecer todos os procedimentos para desenvolver e melhorar o desempenho dos organismos benéficos.

“Quem produz cana e utiliza o controle biológico deve ficar atento às recomendações da pesquisa quanto a diversos fatores, como a qualidade e a idade do parasitoide, a forma de transporte e sua distribuição, o horário de liberação desses inimigos naturais na lavoura, a seleção de produtos fitossanitários quando se faz o controle químico, entre outros”.

Entre as maneiras de se melhorar o desempenho de organismos benéficos no controle de pragas são qualidade dos parasitoides criados em laboratório; cuidado no transporte e nas liberações período que a praga está apta a ser controlada pelo parasitoide; uso de produtos fitossanitários seletivos, entre outros. Oliveira também ressaltou que é de suma importância que sejam criados laboratórios de qualidade em Mato Grosso do Sul (atualmente, não existem laboratórios no Estado) e que os parasitoides a serem trabalhados sejam adaptados à região.

Pesquisas realizadas pela Embrapa Agropecuária Oeste, com apoio da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), avaliaram efeito de stress por temperatura sob diferentes parasitoides de Diatraea saccharalis em laboratório. Resultados mostram diferentes comportamentos de inimigos naturais em relação às variações de temperaturas encontradas na região produtora de Dourados, MS. Os inimigos naturais adaptados às condições climáticas conseguem melhor desempenho.

Previsão do tempo

O pesquisador Claudio Lazzarotto, da Embrapa Agropecuária compilou informações do tempo a partir de dados de diversos institutos nacionais e internacionais para falar da previsão do tempo até o final do ano.

Ele lembrou que o fenômeno El Niño foi forte em 2015/2016, ocasionando excesso de chuva, o que saturou o solo. A partir de julho deste ano, o El Niño perdeu o efeito e a chuva parou, o que, segundo o pesquisador, tornou-se interessante para a cana, permitindo o processo normal de colheita. “Para cana de plantio também não foi um período ruim, porque ainda havia umidade suficiente no solo”, disse.

A partir de setembro, haverá o estabelecimento da La Niña, com chuvas abaixo do normal. Lazzarotto explicou que para cana, diferentemente da cultura da soja, é bom tanto para a colheita quanto para o plantio, porque a planta armazena mais açúcar. Para o pesquisador, tudo indica que o tempo seja favorável tanto para o final da safra atual quanto para o início da próxima.

Fitonematoides

A pesquisadora Leila Dinardo, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) diz que análises de solos cultivados com cana-de-açúcar mostram que 97% das amostras analisadas têm o nematoide Pratylenchus zeae, 35% o Meloidogyne javanica; 20% o M. incognita e 35% o P. brachyurus.

Segundo Leila, os nematoides podem reduzir a produtividade da cana-de açúcar do primeiro corte de 20% a 30%; diminuir a produtividade das soqueiras de 10% a 20% por corte e reduzir a longevidade do canavial em cerca de um corte. No solo arenoso, os danos são mais severos do que em solos argilosos, “provavelmente devido à diferença de capacidade de armazenamento de água que nos arenosos é menor. Mas a população pode ser alta nos dois tipos de solo”, afirmou.

A população de nematoides flutua com o tempo, de acordo com a deficiência hídrica no solo. Em tempo de seca, a população cai, em tempo de maior umidade, aumenta. Para obter amostragens, a pesquisadora recomenda realizá-las nas épocas chuvosas do ano: novembro a abril, em 1 ou 2 pontos por hectare. Para saber o nível de danos econômicos, é preciso fazer experimentações com cana planta e cana soca de diferentes variedades, tipos de solo, espécies e populações de nematoides, misturas de espécies, entre outros dados.

A partir dos resultados, o controle deve ser feito em áreas com média e alta infestação de nematoides. Mesmo com outras formas de controle, como a rotação de culturas a partir da renovação de canaviais, uso de torta de filtro e torta de manona, por exemplo, é necessário usar nematicida. “A cana é muito sensível. Em qualquer época de plantio, quando a população de nematoide é média ou alta, a cana deve receber nematicida no plantio”, afirma a pesquisadora do IAC, Leila Dinardi.

Nutrição complementar

O engenheiro da Usina Cerradão, localizada no Triângulo Mineiro, Michel da Silva Fernandes, trouxe exemplos da realidade de onde trabalha para os técnicos presentes no evento. Segundo ele, o ATR da cana  (Açúcar Total Recuperável, que representa a capacidade da cana-de-açúcar de ser convertida em açúcar ou álcool) tem caído ano a ano. “Depois de alguns anos difíceis, a previsão para 2016 é muito boa”, disse.

Mas também lembrou que a nutrição complementar é importante para aumentar a produtividade da planta: calagem, gessagem, fosfatagem, adubação verde, adubação orgânica, adubação mineral no sulco do plantio (potássio e fósforo), adubação com micronutrientes via solo ou via tolete e via aérea. “A aplicação de micronutrientes auxilia muito e dá muita resposta. Zinco, boro e manganês, por exemplo, são indispensáveis”, falou Fernandes.

O canavial bem nutrido possui um sistema radicular maior, o que, de acordo com Fernandes, contribui para o controle de doenças e pragas, melhora a resistência à deficiência hídrica. “Os solos da área da Usina, são pobres em micronutrientes. Nos experimentos que realizamos, a média de incremento é de 19 toneladas. A média de adubação no sulco e foliar é de 15 toneladas de incremento, em todos os experimentos”, afirmou.

Gestão do manejo integrado de pragas

Sphenophorus levis (bicudo da cana-de-açúcar), Metamasius hemipterus (besouro-rajado-da-cana), Migdolus fryanus (broca-da-cana) são pragas que atacam a cana-de-açúcar. De acordo com o engenheiro agrônomo José Francisco, da Global Cana, um dos empecilhos no manejo é a identificação correta dessas pragas. “Em São Paulo, 150 municípios têm foco do Sphenophorus. Em Mato Grosso do Sul, é preciso monitorar. Produzem de quatro a cinco gerações por ano. Na seca, tem acúmulo de larva e no [período] úmido, de adulto”, alertou Francisco.

Um dos problemas do besouro-rajado-da-cana é que, segundo Francisco, o inseto tem se comportado como o bicudo da cana. “É importante conhecer as adaptações das pragas, como vêm se comportando para conseguir fazer o controle”, disse. Já para a broca-da-cana, Francisco falou que “o manejo deve ser mais pesado. É uma praga de difícil visualização, porque sai para acasalar e volta rapidamente para o colmo.”

A indicação é realizar o monitoramento das pragas em quatro pontos por hectare (30% de cada talhão em 100% do talhão). No caso de barreira química, ele aconselha o uso de equipamentos com robustez, que atinjam de 30 cm a 60 cm de profundidade para realizar as aplicações de inseticidas.

Outra praga que acomete a cana-de-açúcar é a cigarrinha-das-raízes (Mahanarva fimbriolata), tema abordado tanto por José Francisco, engenheiro agrônomo da Global Cana quanto por Leandro Béber, engenheiro agrônomo da Syngenta. “Hoje, um dos grandes problemas, principalmente em áreas de expansão, é que há banco de ovos por causa das pastagens anteriormente cultivadas também com pastagens. Mas se fizer um controle bem feito, é possível conviver tranquilamente”, afirma Francisco.  

Entre as ações recomendadas por Francisco estão o desenleiramento da palha na linha para permitir que a insolação chegue até os ovos da cigarrinha (não é em toda região que isso é possível), e o uso de variedade de cana precoce e o recolhimento da palha em excesso.

“A metodologia de amostragem da cigarrinha é um desafio. Orientamos fazer a amostragem em quatro pontos de 2 metros por hectare, sendo 30% de cada talhão em 100% do talhão. Se o número de ninfas for acima de 2 ninfas por metro é necessário fazer a zona de manejo”, disse o engenheiro agrônomo José Francisco.

Para Béber, a aplicação de produtos é necessária para controlar a praga. Mas um dos problemas averiguados é que muitas vezes as aplicações são mal feitas (aplicações em área total; bicos entupidos/desregulados; etc); com baixa dose de inseticidas; problema na qualidade da água de aplicação, entre outros. “A aplicação mal feita diminui a efetividade do controle”, afirmou.

Béber concorda que a amostragem nas usinas é um gargalo. “Tem que haver uma equipe para fazer a avaliação a cada 15 dias no período de maior incidência. O primeiro controle deve ser feito na 1ª geração da cigarrinha. A gente sabe que a equipe nas usinas atualmente está reduzida, mas o ideal é ter uma equipe específica para o controle de pragas”, falou Leandro Béber.

Sílvia Zoche Borges (MTb-MG 08223 JP)
Embrapa Agropecuária Oeste
agropecuaria-oeste.imprensa@embrapa.br

Fonte: Embrapa

Categorias
Agricultura

Joaninha é indicada para controle biológico de pragas – Embrapa

A cochonilha-rosada, praga que ataca mais de 200 espécies vegetais, poderá ser combatida com um inimigo natural, a joaninha Cryptolaemus montrouzieri, que também é predadora voraz de diversas espécies de cochonilhas e pulgões. Todas essas pragas podem ser controladas pelo inseto aprovado como produto fitossanitário na agricultura orgânica por instrução normativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O documento traz especificação de referência, ou seja, as garantias mínimas de eficácia do emprego da joaninha.

Foto: Nilton F. Sanches
Foto: Nilton F. Sanches

A Embrapa e o Mapa atuaram durante cerca de dois anos na elaboração dessa instrução normativa, publicada no ano passado. A tecnologia foi introduzida no Brasil há 17 anos pela Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA) e apresentou comprovada eficácia também em outros países. Agora ela está disponível para empresas de produtos biológicos que poderão ser multiplicadoras do produto para os agricultores.

“Pelo ‘caminho’ de registro de agrotóxicos convencional, a empresa tem de passar por um processo mais demorado. Agora, com a instrução normativa publicada, a empresa tem o registro facilitado. Sendo assim, o processo terá maior prioridade na avaliação em órgãos responsáveis pelo registro do produto pelo fato de já haver uma normativa versando sobre aquele produto que ela pretende registrar. Ou seja, facilitamos a inovação, mas o registro é de responsabilidade das empresas que vão comercializar”, explica o analista de Gestão Estratégica de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Mandioca e Fruticultura, Samuel Telhado, que participou do processo, focado na publicação da normativa.

O trabalho agora, segundo Telhado, é buscar parceiros privados multiplicadores que registrem oficialmente um produto comercial e o disponibilizem ao mercado — a Embrapa Mandioca e Fruticultura fornecerá indivíduos de sua colônia e a metodologia usada para multiplicação da joaninha. Em seguida, qualquer produtor poderá adquirir os insetos das organizações parceiras e utilizar o produto em pequena, média ou grande escala. As pragas controladas por esse inseto podem causar grandes perdas, atacando fruteiras e hortaliças. “Vamos também tentar negociar para que os parceiros nos informem onde foi aplicado o produto, quantidade distribuída, praga-alvo, cultura etc., de forma que possamos rastrear o alcance da inovação”, informa.
 
Alvo principal é a cochonilha-rosada

A joaninha ataca diversos tipos de pragas (cochonilhas e pulgões), mas o alvo biológico destacado na instrução normativa foi a cochonilha-rosada, inseto originário da Ásia, que suga a seiva das plantas e pode provocar sérios prejuízos a diversos tipos de lavouras. “O Mapa aceitou como referência documentos científicos que comprovam a eficácia da joaninha no combate à cochonilha-rosada na uva. Trata-se de um trabalho realizado no exterior e que foi aceito aqui porque a cochonilha-rosada, até há pouco tempo, não era uma praga presente no País. Ou seja, não teríamos como fazer o experimento aqui, mas no mundo inteiro já há relatos de utilização dessa joaninha desde o século XIX”, acrescenta o analista.

Daí se mensura a importância de estimular a comercialização da joaninha. Até dezembro de 2013, a cochonilha-rosada possuía o status de praga quarentenária ausente, ou seja, fazia parte de uma lista de pragas relacionadas pelo Mapa que nunca haviam ocorrido no território brasileiro. Antes disso, em 2010, foi detectada em Roraima e, a partir de então, permaneceu sob controle oficial. Diante de sua ampla dispersão pelo País, o Mapa a retirou da lista de praga quarentenária, passando-a para a condição de praga presente.

“O reconhecimento feito pelo Mapa ao Cryptolaemus montrouzieri como um produto fitossanitário foi estratégico, tanto do ponto de vista da sustentabilidade econômica das cadeias produtivas, como também ambiental, já que muitas lavouras que se encontram infestadas ou ameaçadas poderiam estar usando agrotóxicos com o objetivo de minimizar as perdas. No entanto, poderão optar por uma ‘tecnologia limpa’, a do controle biológico”, analisa a fiscal agropecuária da Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), Suely Brito, que monitora o desempenho da cochonilha-rosada desde que os focos iniciais foram detectados em plantas ornamentais (a exemplo de hibiscos e ixoras), na região metropolitana de Salvador, em 2013.

Na Bahia, após a confirmação laboratorial da praga, realizou-se um levantamento nas principais rotas de trânsito de vegetais, hortos e pomares comerciais. O trabalho de inspeções fitossanitárias iniciou-se pelo extremo sul do estado. De acordo com Suely, a praga foi detectada em jardins públicos, quintais e hortos dos municípios de Mucuri, Nova Viçosa, Caravelas, Teixeira de Freitas, Ibirapuã e Itamaraju. Em 2014, registrou-se a ocorrência da cochonilha-rosada nas regiões do Recôncavo, infestando espécies ornamentais e lavoura de cacau, e Vale do São Francisco (Juazeiro), também infestando plantas ornamentais, espécies nativas e lavouras comerciais de manga e uva. “Danos associados à incidência dessa praga foram constatados nas lavouras de cacau, como o encarquilhamento das folhas e perdas de bilros, que são frutos novos, logo após a florada, enquanto em lavoura de manga houve  depreciação dos frutos por causa de rachaduras na casca e desenvolvimento de fungo. Nos parreirais, foram observados enrugamento de folhas e perda de bagas”, conta.

Um desses casos foi a infestação detectada na fazenda Engenho D’Água, em São Francisco do Conde. O proprietário Mário Augusto Ribeiro conta que 100% da plantação de cacau foi atingida. “Na safra de 2013 para 2014, tive um prejuízo grande, uma perda de 50%.” A infestação foi controlada por inimigos naturais, nativos e exóticos, sendo o principal deles, de ocorrência já natural na região, oCryptolaemus montrouzieri.

Hoje a joaninha pode ser encontrada na natureza, em algumas regiões, mas Telhado destaca o risco de quem tiver problemas com a cochonilha-rosada e preferir esperar a chegada do inimigo natural de forma espontânea. “Quando isso acontecer, e se acontecer, a perda financeira já pode ter sido grande porque a cochonilha-rosada, além de sugar a planta, ainda injeta toxina nela. A planta pode definhar, inclusive afetando árvores adultas de grande porte. A vantagem de adquirir o produto comercial é que a joaninha vai ser aplicada na quantidade necessária e vai funcionar como um ‘aspirador’ contra a praga”, explica.

O pesquisador Antonio Nascimento, que faz parte da equipe de entomologista da Embrapa Mandioca e Fruticultura, acrescenta que esse é um procedimento normal em controle biológico: “O inimigo natural se dispersa em função da ocorrência espacial da praga, pois há uma relação de dependência. Se o nível da ocorrência da praga é muito alto, a quantidade de joaninha aumenta. Se a população da praga baixar, reduz-se o alimento para o inimigo natural, resultando na queda da população da joaninha. Daí a necessidade de se manter uma criação básica em laboratório para novas liberações em campo. A estratégia de controle biológico é periodicamente liberar novos indivíduos para manter minimamente presente a população no campo”.

Interesse das empresas no registro do produto

Nos Estados Unidos, já existe uma série de empresas que multiplica a joaninha. No Brasil, o trabalho é para que empresas passem a oferecer esse produto ao mercado nacional.

Marcelo Poletti, da Promip, empresa de base tecnológica que comercializa produtos biológicos e serviços especializados para a implementação de programas de manejo integrado de pragas, diz que a publicação da instrução normativa influenciou na decisão da empresa de entrar com pedido de registro do produto do Mapa, a fim de trazer esse inimigo natural para dentro de seu portfólio. “O fato é que ele completa nossa linha de macrobiológicos. Nós temos cinco produtos registrados: três ácaros predadores e dois parasitoides. Submetemos ao Ministério o pedido de registro também doCryptolaemus“, afirma.

A decisão de aumentar o portfólio baseia-se no interesse cada vez maior por produtos de controle biológico no País. “Com novas empresas, novos produtos surgindo e tornando-se realidade, o produtor começa a interagir mais com esse tipo de tecnologia”, argumenta Poletti. Ele acrescenta que, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCbio), há uma tendência de crescimento no setor maior do que se evidencia no segmento de controle químico: “Hoje o faturamento dos químicos está em torno de US$ 12 bilhões, com crescimento anual de 3% a 5%. A projeção que se faz para os biológicos pode chegar a até 15% de crescimento anual. Essa é uma tendência não só no Brasil como no mundo.”

Marcos Bellini, da Topbio/Agromic Nordeste, empresas que atuam em inovações tecnológicas sustentáveis para agricultura, afirma que a publicação da especificação de referência interessou bastante porque facilita o caminho do registro. “Uma vez registrado, abre portas para trabalharmos em diversas culturas no País. Além de controlar a cochonilha-rosada, controla outras cochonilhas importantes e outros tipos de pragas. Tenho visitado produtores que estão com problemas com cochonilhas, como a da palma. A demanda é grande. Há interesse de nossa parte em adquirir essa tecnologia.”

No entanto, Bellini diz que é preciso pensar em uma forma de baratear o custo: “A tecnologia é excelente, eficiente, o produto funciona, é comercializado em vários países, porém temos que analisar o custo do produto no final para se tornar viável ao produtor”.

O pesquisador Nilton Sanches, entomologista responsável pela criação do Cryptolaemus na Embrapa Mandioca e Fruticultura, explica que a base de criação da joaninha na tecnologia desenvolvida pela Embrapa é a abóbora do tipo Jacarezinho, que nos últimos anos encareceu muito, aumentando o custo de produção: “Por isso, estamos em busca de uma alternativa, uma dieta para baratear a produção massal desse inseto”.

Projeto da Embrapa

Buscar uma nova dieta de alimentação para reduzir o custo de criação da joaninha é o objetivo de um projeto recém-aprovado na Embrapa. Integra a equipe a pesquisadora Beatriz Paranhos, da Embrapa Semiárido (PE), que desenvolve experimentos com o Cryptolaemus desde 2005. O foco de seus estudos é o controle biológico da cochonilha-do-carmim, que ataca a palma forrageira, cultura importante para a região semiárida, utilizada na alimentação animal na época da seca. “Essa cochonilha estava acabando com os palmais. Por meio de um projeto com a Finep [Financiadora de Estudos e Projetos], desenvolvemos métodos de controle biológico com a joaninha e vimos que ela é muito voraz e eficaz”, conta.

Beatriz levou indivíduos da colônia da Embrapa Mandioca e Fruticultura para seus experimentos. Começou criando o inseto da mesma forma, utilizando a abóbora como substrato. Posteriormente passou a utilizar a própria cochonilha-do-carmim na palma forrageira: “Eu infestava a raquete da palma livre de infestação com ninfas da cochonilha-do-carmim. Em 20 dias, estava toda infestada com a colônia desse inseto. Daí colocava os casais de Cryptolaemus montrouzieri para se alimentar na colônia e, assim, a joaninha ia se multiplicando.”

A pesquisadora informa que fez vários testes para ver o quanto a joaninha consumia por dia, em que fase consumia mais, quantos dias sobrevivia, quantos ovos produzia, sua fertilidade etc. “Enfim, fiz estudos para verificar o comportamento da joaninha e vi que ela preferia a cochonilha-do-carmim, que tem corpo mole, sem carapaça, assim como a cochonilha-rosada”, elucida.

O objetivo do novo projeto é o desenvolvimento de uma dieta artificial, visando reduzir custos de criação. “Em vez de eu alimentar, por exemplo, com mil colônias da cochonilha e demandar muita abóbora, eu alimento com 500 colônias e mais uma dieta artificial. Isso é o mínimo que queremos obter com o projeto. O máximo seria conseguir uma dieta para a fase de larvas da joaninha que supra todas as suas necessidades nutricionais. Ou seja, que ela possa se alimentar só da dieta artificial e chegue à fase adulta, consiga colocar seus ovos e que estes sejam viáveis”, finaliza Beatriz.
 
Histórico

Cryptolaemus montrouzieri é uma joaninha, espécie exótica, que vem sendo benéfica ao homem mundo afora desde o fim do século XIX. Várias colônias dessa joaninha, conhecida como “joaninha-australiana” ou “destruidora-de-cochonilhas”, foram enviadas entre 1891-1892 da Austrália à Califórnia para controlar espécies de cochonilhas que atacavam citros, com destaque para o Planococcus citri, da família Pseudococcidae (sem carapaça). Atualmente, dezenas de empresas nos Estados Unidos, por exemplo, produzem esse predador e o comercializam para a liberação em campo.
 

 

Alessandra Vale (Mtb 21.215/RJ)
Embrapa Mandioca e Fruticultura

Fonte: Embrapa