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Curiosidades do Agro

Johanna Döbereiner descobriu que plantas podem gerar seu próprio adubo interagindo com bactérias

Técnica sustentável fez o Brasil reduzir o uso de fertilizantes químicos nas lavouras de soja, o que provocou economia US$ 2 bi por ano na cultura e ajudou a impulsionar o país como um dos maiores produtores do grão.

 

Johanna Döbereiner no laboratório da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). — Foto: Divulgação
Johanna Döbereiner no laboratório da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). — Foto: Divulgação

Nascida em 1924 na antiga Tchecoslováquia (hoje República Tcheca e a Eslováquia), imigrou para o Brasil em 1950, em meio à instabilidade e perdas deixadas pelo fim da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Por aqui, dedicou toda a sua vida à ciência, liderando pesquisas de microbiologia do solo a partir a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), até o final de sua vida, em 2000.

Sempre com foco em sustentabilidade, em uma época em que o tema era pouco debatido, Johanna demonstrou que é possível eliminar o uso de adubos químicos poluentes e caros em culturas como a soja, aproveitando-se somente do que já existe na natureza.

Mais especificamente das Bactérias Fixadoras de Nitrogênio, que são capazes de capturar o nitrogênio do ar, um adubo natural para as plantas. Esses seres vivos, que vivem no solo, nas folhas, nos caules, foram descobertos em 1901 pelo microbiologista Martinus Beijerinck.

Johanna Döbereiner sempre focou em sustentabilidade, em uma época em que o tema era pouco debatido. — Foto: Divulgação
Johanna Döbereiner sempre focou em sustentabilidade, em uma época em que o tema era pouco debatido. — Foto: Divulgação

Mas foram os estudos de Johanna, a partir da década de 1950, que mostraram como usar as bactérias a serviço da agricultura, já que nem todas têm capacidade de transferir o nitrogênio para as plantas, explica a agrônoma Vera Baldani, aluna, colega de trabalho e amiga muito próxima da cientista.

“A Johanna e os pesquisadores que embarcaram na ideia dela descobriram que as bactérias Rizóbio fazem uma simbiose perfeita com a soja: elas se alimentam da seiva da planta e, em troca, fornecem o nitrogênio para a soja. Uma tecnologia limpa”, conta Vera.

A técnica consiste em introduzir as bactérias nas sementes de soja, que, quando começam a germinar, produzem nódulos nas raízes da planta que funcionam como usinas para a extração de nitrogênio do ar.

A fixação biológica de nitrogênio no plantio da soja gera uma economia de US$ 2 bilhões por ano com adubos químicos, diz Embrapa. — Foto: Divulgação/Ascom Seagri
A fixação biológica de nitrogênio no plantio da soja gera uma economia de US$ 2 bilhões por ano com adubos químicos, diz Embrapa. — Foto: Divulgação/Ascom Seagri

Os estudos derrubaram a crença da época de que os fertilizantes químicos eram insubstituíveis. A descoberta, ao reduzir os custos de produção, ajudou a transformar a soja nacional em um dos principais produtos de exportação do Brasil.

Estima-se, inclusive, que a fixação biológica de nitrogênio no plantio da soja gere uma economia de US$ 2 bilhões por ano com adubos químicos, segundo a Embrapa.

Uma vida dedicada às bactérias

Além da soja, Johanna liderou pesquisas sobre a fixação biológica de nitrogênio por palmáceas, como o dendezeiro. E descreveu a bactéria Beijerinckia fluminensis, que interage com a cana-de-açúcar, o que foi um de seus grandes feitos, conta a jornalista Kristina Michahelles, em seu livro “Johanna Döbereiner: uma vida dedicada à ciência”.

A cientista dizia que seu “insight “se deu a partir da observação de que a planta da cana-de-açúcar estava sempre verde, mantendo certa produção constante há séculos no país, mesmo em períodos secos, sem o uso de adubação especial.

 

Johanna Döbereiner fala, em campo, sobre as pesquisas com a planta da cana-de-açúcar. — Foto: Divulgação
Johanna Döbereiner fala, em campo, sobre as pesquisas com a planta da cana-de-açúcar. — Foto: Divulgação

Além disso, Johanna coordenou estudos sobre as limitações da fixação de nitrogênio em leguminosas, como o feijão, nos quais Vera trabalhou.

Ela foi também professora e orientadora de vários cientistas que hoje ocupam posição de destaque na pesquisa no Brasil. Tem mais de 500 títulos publicados, mais de 20 prêmios, além de uma indicação ao Prêmio Nobel de Química em 1997.

 

Anos de turbulência na guerra

Antes de fazer história na ciência, Johanna passou por duras perdas na Europa. Uma das principais foi a de sua mãe, Margarethe Kubelka, que morreu em um campo de concentração após o fim da Segunda Guerra, em 1945, como muitos sudetos, povos de origem alemã.

Nascido austríaco, o pai de Johanna, Paul Kubelka, recebeu a cidadania tcheca em 1918, que foi anulada com a ocupação nazista no país, em 1939. A família se tornou alemã, mas “não tinham a menor simpatia pelos invasores”, conta a jornalista Kristina.

Paul, que era químico, foi constantemente espionado pela Gestapo, teve seus cursos proibidos da Universidade de Praga e ajudou amigos judeus a fugirem da perseguição nazista.

Johanna Döbereiner — Foto: Divulgação
Johanna Döbereiner — Foto: Divulgação

Com o fim da guerra, os pais de Johanna foram internados em um campo de trabalho forçado, enquanto ela conseguiu fugir para a Alemanha com seus avós paternos. Seu pai teve um destino diferente do sua mãe, e conseguiu escapar do campo de concentração para as terras alemãs.

Da sua mãe, ficaram lembranças de uma mulher com ideias à frente de seu tempo: “Não devemos falar para a nossa filha que o seu destino será encontrar um marido. Devemos dizer à nossa filha que a sua vitória terá sido alcançada quando se orgulhar daquilo que realizou”, anotou Margarethe, em seu diário.

Johanna Döbereiner — Foto: Divulgação
Johanna Döbereiner — Foto: Divulgação

Com a Europa em escombros, o pai de Johanna imigrou em 1948 para o Brasil.

A cientista, entretanto, só chegaria dois anos depois, após ter se formado em agronomia na Escola Superior Técnica de Munique, onde conheceu o seu esposo, o médico veterinário Jürgen Döbereiner, que a acompanhou na mudança de país.

Nova pátria

“A minha mãe viu o Brasil como o início de uma nova vida. Não tinha como voltar para Praga, que estava sob o comunismo, e a Alemanha não era o lar dela. Então ela abraçou o Brasil com tudo e aprendeu logo a língua”, conta a filha mais velha de Johanna, Marlis Arkcoll.

Johanna não perdeu mesmo tempo. Assim que chegou, fez contatos para conseguir trabalhar com pesquisa e, em menos de seis meses, já estava empregada no Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícola (IEEA), precursor do que atualmente é a Embrapa Agrobiologia, em Seropédica, interior do Rio de Janeiro.

Ela e seu esposo se naturalizaram brasileiros em 1956.

Johanna Döbereiner em sua casa em em Seropédica, interior do Rio de Janeiro. — Foto: Divulgação
Johanna Döbereiner em sua casa em em Seropédica, interior do Rio de Janeiro. — Foto: Divulgação

Quem abriu as portas para ela foi o pesquisador Álvaro Barcellos Fagundes, diretor do Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas, que tinha enorme interesse pelas aplicações práticas da fixação biológica de nitrogênio no solo por meio das bactérias.

Foi em Seropédica também que Johanna e seu marido Jürgen fizeram morada e criaram seus três filhos: Marlis, Christian e Lorenz.

 

Olhares de filha e amiga
Johanna Döbereiner com seu marido e filhos. — Foto: Divulgação
Johanna Döbereiner com seu marido e filhos. — Foto: Divulgação

Desde que entrou na pesquisa, Johanna não parou mais. Eram constantes as suas viagens para congressos e seminários, rememora Marlis.

“Ela fez com que nós, filhos, nos tornássemos responsáveis bem cedo na vida. Ela viajava muito, em uma época que era difícil ver mulher viajando sozinha. Ela adora viajar, voltava com os olhos brilhando e com a mala cheia de presentinhos exóticos, sementes”, conta Marlis,.

Em casa, Johanna e Jürgen também faziam com que os que filhos só lessem em alemão e em inglês para que eles pudessem aprender outras línguas além do português na escola.

Johanna Döbereiner no laboratório da Embrapa. — Foto: Divulgação
Johanna Döbereiner no laboratório da Embrapa. — Foto: Divulgação

No laboratório, ela também era dinâmica, além de uma incansável questionadora, conta a pesquisadora Vera Baldani, amiga de toda uma vida de Johanna, que entrou na Embrapa em 1976.

“Com ela não tinha meio termo, ela era bem direta. A gente discutia muito por causa de experimento, pesquisa, porque ela ensinava a gente a ser crítica. Era bastante exigente e enérgica. Mas também de um coração fantástico […] Sabia quando tinha algo errado com a gente apenas com o olhar”, conta Vera.

Fora do laboratório, era comum que Vera e Johanna se reunissem para fazer tricô e ouvir música clássica. “A gente conversava de tudo, ciência, música, marido, filho. Nós tínhamos uma ligação muito forte, de mãe e filha”, diz Vera.

Últimos anos de vida

Vera acompanhou ainda os primeiros sinais do Alzheimer que acometeu Johanna no início dos anos 90.

“Mesmo com a doença, ela nunca deixou de ir para a Embrapa. Foi duro porque, naquela época, não se acreditava que as pessoas que trabalhavam tanto a mente teriam Alzheimer”, conta Vera.

A doença piorou com a trágica morte de seu filho mais novo, Lorenz, assinado em março de 1996, com um tiro disparado por um motoqueiro, em um sinal de trânsito em São Paulo, em circunstâncias que não foram esclarecidas até hoje.

Johanna morreu quatro anos depois, com 75 anos, em 5 de outubro de 2000, por uma broncopneumonia causada por aspiração.

Seu nome ressoa até hoje nas pesquisas de microbiologia do solo. E foi até imortalizado em suas companheiras de toda uma vida: as bactérias fixadoras de nitrogênio Cluconacetobacter johannae sp. e Azospirillum doebereinerae sp.

Por:  Paula Salati, G1

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Boas Práticas

Brasil deve ser destaque mundial no uso de bioinsumos nos próximos anos

Crescimento do uso desses produtos é de cerca de 28% ao ano no Brasil. Em 2020, o Mapa registrou 95 defensivos de baixo risco, entre produtos biológicos, microbianos, semioquímicos, bioquímicos, extratos vegetais, reguladores de crescimento.

 

 

Utilizar produtos biológicos para combater pragas e doenças que ameaçam as plantações é uma tendência na produção agrícola. O consumo de bioinsumos pelos produtores cresce em todo o mundo e o Brasil não ficou para trás. Enquanto o incremento mundial está na ordem de 15% ao ano, no Brasil as taxas são quase o dobro: 28%, movimentando mais de R$ 1 bilhão, segundo estimativa de pesquisa de mercado realizada pela empresa Spark Smarter Decisions.

É neste cenário que, em 2020, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) registrou 95 defensivos de baixo risco, entre produtos biológicos, microbianos, semioquímicos, bioquímicos, extratos vegetais, reguladores de crescimento. Em relação ao ano anterior, o aumento é de 121% no número de registros. “O Brasil ainda não é protagonista no uso de bioinsumos no mundo, mas, com esse ritmo de crescimento em comparação ao mundo, a tendência é que alcancemos as primeiras posições num futuro próximo”, afirma o presidente do Conselho Estratégico do Programa Bioinsumos, Alessandro Cruvinel Fidelis.

Segundo ele, se a expectativa de crescimento se confirmar, até a safra de 2022, metade da área planta de soja no país terá recebido, ao menos, uma aplicação de bioinsumos. Para atender à crescente demanda por profissionais capacitados em boas práticas de produção de bioinsumos no país, o Mapa lançou, nesta quinta-feira (8), o primeiro curso sobre produção e controle de qualidade de bioinsumos.

Criado há pouco mais de um ano, o Programa Bioinsumos, no entanto, caracteriza essa tecnologia para muito além dos produtos aplicados na lavoura. O termo bioinsumos define ainda os processos e tecnologias – de origem vegetal, animal ou microbiana -, destinados ao uso nos diversos sistemas de produção agrícolas, pecuários, aquícolas e florestais. Além de estar presente também no armazenamento e beneficiamento dos alimentos.

Um exemplo é a utilização de cera de carnaúba em uma nanoemulsão para frutas e legumes, criando uma barreira contra perda de umidade, troca de gases e ação microbiana. O resultado é o aumento de cerca de 15 dias no tempo de prateleira dos produtos, evitando perdas e desperdícios de alimentos. A tecnologia foi desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Já na agropecuária, os bioinsumos podem ser encontrados em produtos veterinários como vacinas, medicamentos, antissépticos, fitoterápicos dentre outros destinados à prevenção, ao diagnóstico, à cura ou ao tratamento das doenças dos animais.

Aumento da produtividade e redução de custos

O agricultor Adriano Cruvinel começou a usar bioinsumos na produção da fazenda da família, localizada no município de Montividiu (GO), a partir de 2017. Primeiro foi realizada a remineralização do solo com pó de rocha, depois a definição de quais talhões receberiam aplicação do adubo potássio forte numa primeira dose. A experiência deu certo e foi comprovada “a olho nu” no campo nas safras seguintes de milho e soja da fazenda.

Nos últimos quatro anos, Adriano não utilizou fungicida e, para próxima safra, o teste será a retirada dos inseticidas para o controle de lagartas, mosca branca, percevejo. “Os bioinsumos permitem atuar diretamente na causa do problema e não apenas como paliativo. Na natureza há uma sinergia entre a biologia e a química do solo para criar processos de ecossistemas saudáveis. Assim, não estamos inventando a roda, apenas aperfeiçoando técnicas a partir do que a natureza nos mostra”, defende.

A produtividade média da fazenda cresceu 8,6% em relação aos anos anteriores. O custo da produção também teve redução, gerando, consequentemente, maior rentabilidade ao produtor.  Adriano compara dados das safras de 2014/2015 com os da 2019/2020. No primeiro momento, das 53 sacas de soja produzidas por hectare, cerca de 47 delas foram consumidas pelos custos da produção. Já no segundo cenário, a produtividade cresceu para 66 sacas por hectare enquanto os custos caíram para 21,6 sacas. “A partir do segundo ano de inserção dos bioinsumos houve uma grande diferença do custo de produção, com redução a cada safra e com perspectiva de diminuição ainda de cerca de 20, 25%”, prevê o produtor.

Adriano acredita que o uso de bioinsumos é um caminho sem volta. “Quando começamos, lá atrás, erámos seis produtores reunidos na associação. Hoje, acredito que, pelo menos, 50% ali de Montividiu já está produzindo bioinsumos ou comprando esse material de cooperativas da região ou de outras cidades de estados vizinhos”, disse ele ao avaliar o crescimento da tecnologia em seu município.
Política de estado e incentivo
O interesse e o número de ferramentas para implementar as boas práticas estão em constante aceleração. Isso demonstra credibilidade no Programa Nacional de Bioinsumos como estratégia do governo em institucionalizar a tecnologia e estimular o uso de bioinsumos.

Tanto que o Plano Safra 2021/2022 fortaleceu linhas de crédito para Inovagro, abrangendo o financiamento para a construção de biofábricas. Assim, os produtores poderão financiar recursos para a aquisição e construção de instalações para a implantação ou ampliação de unidades de produção de bioinsumos e biofertilizantes na propriedade rural, para uso próprio.

O projeto nacional de bioinsumos do Mapa também já se desdobrou em incentivo à criação de programas estaduais. O primeiro deles, foi aprovado em Goiás, onde está localizada a fazenda do Adriano. Os estados de Mato Grosso e o Distrito Federal também começaram a desenvolver seus programas.

Os dados e a replicação de iniciativas para a utilização de bioinsumos na produção nacional devem ser comemorados e traduzem um movimento de revolução na forma de se produzir os alimentos, enfatiza a ministra Tereza Cristina.  “Investir nos bioinsumos e pensar estrategicamente na agricultura de base biológica é a resposta que o nosso país dá ao mundo para continuar confirmando que nosso agro é sustentável e inovador”, pontua.

Por: Noticias Agrícola

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Pastagem

Recuperação de pastagens degradadas poderia aumentar em 9,7% rebanho bovino brasileiro, diz estudo

Artigo foi publicado nesta quarta-feira (7) por pesquisadores brasileiros na revista científica Royal Society Open Science. Melhoria seria feita com técnicas já usadas por pecuaristas, gerando 17,7 milhões cabeças de gado a mais no país, 1,5 vezes o tamanho do rebanho do Uruguai.

Com recuperação, país poderia ter 17,7 milhões cabeças de gado a mais. — Foto: Divulgação/Embrapa
Com recuperação, país poderia ter 17,7 milhões cabeças de gado a mais. — Foto: Divulgação/Embrapa

 

A recuperação de pastagens degradadas com técnicas já existentes poderia aumentar em 9,7% o rebanho bovino brasileiro, mostra um estudo de pesquisadores brasileiros publicado nesta quarta-feira (7), na revista científica Royal Society Open Science.

Essa alta representaria 17,7 milhões cabeças de gado a mais no país, 1,5 vezes o tamanho do rebanho do Uruguai. O efetivo nacional é de 214,7 milhões de cabeças, segundo últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

 

O estudo considerou os 12 milhões de hectares de pastagens degradadas reconhecidas pelo Censo Agropecuário nacional, onde os próprios pecuaristas fazem a declaração, explica Rafael Barbieri, economista sênior do World Resource Institute (WRI) Brasil, um dos autores do estudo, ao lado de José Gustavo Feres, do Ipea.

Porém, ele afirma que esse número é bem maior, entre 80 milhões e 100 milhões hectares, de acordo com o Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig) da Universidade Federal de Goiás (UFG). O potencial de recuperação, portanto, pode ser bem maior também.

Outra estimativa

Os autores fizeram também um outro cálculo considerando o cumprimento das regras do Código Florestal. Nesse cenário, as pastagens nativas usadas na pecuária seriam destinadas à regeneração natural, para cobrir o déficit de Áreas de Preservação Permanente (APP) e de Reservas Legais.

Se, ainda assim, o déficit não fosse zerado, as pastagens degradadas poderiam ser usadas. “E sobraria ainda uma boa área de pastagem para recuperar, que seria, então, destinada à produção agropecuária”, diz Barbieri.

Nesse caso, o rebanho bovino cresceria em 9 milhões de cabeças (ou 4,9% do rebanho atual) e ainda garantiria 12,7 milhões de hectares para restauração, mais do que suficiente para cobrir as metas brasileiras de restauração assumidas no Acordo de Paris.

Técnicas simples

O diferencial deste estudo, segundo Barbieri, é que ele considera que a regeneração de pastagens pode ser feita com técnicas simples, levando em conta as restrições orçamentárias dos produtores, as boas práticas regionais de taxa de lotação de pastagens e investimentos já existentes.

“Não são sistemas sofisticados, mas coisas simples, que a Embrapa já fala há 40 anos, como terraceamento, curva de nível, ressemeadura de pastagem para cobrir as áreas que ficam com solo exposto”, reforça.

. Para chegar a esses resultados, os estudo também propõe:

*Fortalecer o Plano ABC, realocando recursos hoje destinados a pastagens, mas que não condicionam a aplicação em manejo adequado;

*Priorizar a aplicação desses recursos em regiões com alto potencial produtivo, mas alta concentração de pastagens degradadas e desmatamento;

*Fomentar Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), pois a sua presença no campo está relacionada com o aumento de eficiência pecuária;

*Adequar as práticas produtivas às exigências crescentes dos mercados doméstico e internacional de zerar o desmatamento, cumprir as leis ambientais, fiscais e trabalhistas, e não tolerar relaxamento nos cuidados com bem estar animal.

Fonte: G1

Por: Paula Salati, G1

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Embrapa

Contagem regressiva para o Confina Brasil, expedição que fará o raio-x do confinamento de bovinos no país. Início pelos estados do RS, SC e PR

A primeira rota nos três estados da região Sul acontece entre os dias 21 de junho e 09 de julho.

Os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná recebem a primeira rota da expedição Confina Brasil, que fará o mapeamento de 40% do gado confinado no país. A programação no Sul do país acontece entre os dias 21 de junho e 09 de julho. Serão visitadas 54 propriedades em 43 municípios para coleta e análise de dados de manejo, gestão, índices zootécnicos, infraestrutura, nutrição e sanidade, entre outros fatores de produção. A ação é realizada pela Scot Consultoria.

Em sua segunda edição, o Confina Brasil viajará por 11 estados, com a visita a 120 propriedades, e atualizará, de forma remota, os dados dos confinamentos visitados em 2020, totalizando a pesquisa em 14 estados. O estudo contemplará informações de propriedades responsáveis pela terminação de mais de 2 milhões de bovinos em confinamento.

A equipe é formada por engenheiros agrônomos, médicos veterinários e zootecnistas da equipe da Scot Consultoria, todos especialistas em pecuária e preparados para coletar os dados e interpretá-los com o olhar na evolução constante da atividade.

“Um diferencial da expedição é divulgar a realidade da produção e também conhecer histórias de pessoas que lideram esse processo”, destaca o time da Scot Consultoria. Nesse sentido, o Confina Brasil 2021 dá atenção especial à gestão, tecnologia, sucessão familiar e sustentabilidade.

 

Confira o cronograma da 1ª Rota do Confina Brasil na região Sul:
  • 21 de junho: Viamão, Alto Feliz, São Lourenço do Sul (RS)
  • 22 de junho: São Sebastião do Cai, Farroupilha, Capão do Leão (RS)
  • 23 de junho: Cachoeira do Sul e Dom Pedrito (RS)
  • 24 de junho: São Sepé, Cachoeira do Sul e Uruguaiana (RS)
  • 25 de junho: Santiago e São Borja (RS)

  • 28 de junho: Ibicaré e Videira (SC)
  • 28 de junho: Santa Barbara do Sul e Chapada (RS)
  • 29 de junho: Frederico Westphalen (RS)
  • 29 de junho: Treze Tílias e Sul Brasil (SC)
  • 30 de junho: Salto Veloso, Macieira, Jardinópolis (SC)
  • 30 de junho, 1 e 2 de julho: Campo Erê (SC)

  • 01 de julho: Palmas e Coronel Vivida (PR)
  • 02 de julho: Coronel do Iguaçu, São João, Pato Branco (PR)
  • 5 de julho: Esperança Nova, Cascavel (PR)
  • 5 e 6 de julho: Umuarama (PR)
  • 6 de julho: Santa Mônica, Santa Tereza do Oeste, Braganey (PR)
  • 7 de julho: Loanda, Marilena, Terra Rica, Boa Ventura de São Roque, Luiziana (PR)
  • 8 de julho: Mandaguari, Barbosa Ferraz (PR)
  • 8 e 9 de julho: Paranavai (PR)

O Confina Brasil 2021 tem patrocínio Ouro da BRA-XP, Elanco, Casale, Nutron e UPL; e patrocínio Prata da AB Vista, Associação Brasileira de Angus, Barenbrug, Beckhauser, Confinart, GA (Gestão Agropecuária), Inpasa e Zinpro.  A expedição conta, ainda, com o patrocínio da montadora Fiat e apoio institucional da Assocon, Embrapa Pecuária Sudeste, Embrapa Informática, Sociedade Rural Brasileira e Hospital de Amor de Barretos.

Por: Confina Brasil

Fonte: Scot Consultoria

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Agricultura

Tecnologias da Embrapa podem melhorar a produção da farinha mais famosa do Pará

A conquista do selo de indicação geográfica da Farinha de Bragança estimula a adoção de tecnologias e práticas agropecuárias de baixo custo que visam produtividade, segurança alimentar e sustentabilidade, propiciando aumento na renda e melhoria da qualidade de vida dos agricultores familiares que são os mestres na produção da farinha bragantina.

É mais uma vitória da culinária e cultura paraense com a tão famosa Farinha de Bragança que conquista o selo de indicação geográfica na modalidade Indicação de Procedência. Isso significa que essa farinha vai ser reconhecida no Brasil e no exterior pela qualidade e origem da cidade ou região onde é produzida. Com o selo, só é Farinha de Bragança aquela produzida nos municípios de Augusto Corrêa, Bragança, Santa Luzia do Pará, Tracuateua e Viseu.

A certificação, concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), será utilizada por todos os produtores que estejam produzindo nesses municípios e que terão seus produtos monitorados para padrão de qualidade junto a um conselho regulador. É garantia aos consumidores na compra de uma produto certificado e aos produtores, que terão seu trabalho reconhecido e com valor diferenciado no mercado.

O trabalho para a obtenção da indicação geográfica já durava uma década, liderado pela Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares dos Caetés (Coomac) junto ao Fórum Estadual de Indicação Geográfica e Marcas Coletivas, do qual fazem parte diversas instituições, como MAPA, Universidade Estadual do Pará, Sebrae, Embrapa, entre outras.

De acordo com Sheila de Souza Corrêa de Melo, analista da Embrapa e membro no fórum, há dois tipos de Indicação Geográfica no Brasil: A Indicação de Procedência (IP) certifica a origem do produto, baseada na reputação da região, geralmente conhecida por fabricar determinado produto, ou prestar determinado serviço, a partir do histórico e da tradição locais. A segunda é a Denominação de Origem (DO), que é concedida quando as qualidades do produto sofrem influência exclusiva ou essencial das características daquele lugar, sejam fatores naturais, ambientais ou humanos, como o aroma e o sabor de um produto cultivado em determinado solo e clima.

“O IG da Farinha de Bragança é de Procedência, assim como o do Queijo do Marajó, obtido no mês de março deste ano. Com eles, já são quatro os produtos estaduais que têm selo de indicação geográfica na modalidade Indicação de Procedência: Cacau de Tomé-Açu (jan/2019), Guaraná nativo e bastão de guaraná da Terra Indígena Andirá-Marau (outubro/2020 – IG dividida com o Amazonas), Queijo do Marajó (março/2021) e Farinha de Bragança (maio/2021)”, informa Sheila Melo.

Farinha de Bragança segue na conquista de novos mercados

A farinha de Bragança, que conquistou o selo de indicação geográfica, é um produto tradicional fabricado com técnicas centenárias, exclusivamente, por agricultores familiares da região bragantina conforme explicou o presidente da Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares dos Caetés (Coomac) Paulo do Carmo. Ele fala que os produtores estão em festa com o reconhecimento e com as possibilidades de mercado, renda e melhoria da qualidade de vida que e selo pode propiciar. “A partir de agora, o consumidor terá a certeza da origem do produto e o agricultor o reconhecimento de seu trabalho”, comemora o presidente da Coomac.

O momento de festa também traz grandes reflexões e desafios, enfatiza Paulo do Carmo, pois a cultura da mandioca na região ainda carece de políticas públicas e tecnologias para garantir o aumento da produtividade e segurança alimentar, para assim, levar a farinha d’água bragantina ao mundo e trazer com isso desenvolvimento e qualidade de vida aos agricultores e a toda região. “O selo vai nos dar mais força para buscar junto aos órgãos municipais, estaduais e federais o acesso às tecnologias e melhorias para toda a cadeia de produção desde o plantio da mandioca a comercialização da farinha”, analisa.

Tecnologias de baixo custo são aliadas na produtividade

Adriano Venturieri, chefe-geral da Embrapa Amazônia Oriental, afirma que selo de indicação geográfica concedido a farinha de Bragança é mais uma merecida vitória da agricultura familiar paraense. Ele lembra que o Pará é o maior produtor de mandioca do Brasil, mas a produtividade da raiz por hectare ainda está muito abaixo do potencial do tubérculo. “Tecnologias simples e de baixo custo, elaboradas pela Embrapa, podem impulsionar a produtividade da mandioca e auxiliar a farinha de Bragança a chegar ainda mais longe, produzindo mais, melhor e refletindo em desenvolvimento regional”, defende o gestor. E complementa que a Embrapa está aberta a parcerias com as prefeituras, cooperativas e demais órgãos para implementar as tecnologias na região.

A notícia também foi comemorada pelo pesquisador da Embrapa Raimundo Brabo, referência na cultura da mandioca no estado. Ele relembra a farinha lavada de Bragança, uma das farinhas que integram a categoria das farinhas d’água que estão contempladas no IG, ganhou um capítulo inteiro no livro “Mandioca: agregação de valor e rentabilidade de negócios”, lançado pela Embrapa em 2019.

Intitulado “Rentabilidade da produção da farinha lavada de Bragança – estudo de caso”, o artigo assinado pelo especialista também defendia a conquista do IG, além de trazer o levantamento detalhado das etapas de produção custos e possibilidades de rentabilidade do produto.

O cientista explica ainda que são as muitas as contribuições da Embrapa para a cultura e cita entre elas, o Trio da Produtividade e o Sistema Bragantino. “Ambas as tecnologias são de baixo custo, fácil adoção pelos agricultores e podem em pouco tempo, duplicar a produtividade da raiz na região e com isso, contribuir com a produção da melhor farinha do Pará”, garante Brabo.

Conheça mais sobre as tecnologias:

Trio da Produtividade: é um conjunto de boas práticas que possibilita colher mais e melhor em diferentes regiões do Brasil. As técnicas consistem basicamente na seleção de manivas-sementes, plantio em espaçamento de 1m x 1m e capina manual durante cinco meses após o plantio da mandioca. A inovação, tendo como base a simples adoção de tecnologias de processo, pode dobrar a produtividade dos plantios de mandioca sem aumentar o custo do produtor.

Sistema Bragantino: é uma técnica de cultivo, em rotação e consórcio, das culturas de milho ou arroz, de mandioca e feijão-caupi, com uso de técnicas de plantio direto, podendo ser aplicada tanto em propriedades familiares, como na agricultura empresarial, tendo como “ponto de partida” a recuperação da fertilidade do solo. Garante produtividade, diversidade na produção e segurança alimentar.

Fonte: Embrapa Amazônia Ocidental

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Embrapa

Controle de cigarrinha no milho

Enfezamentos por molicutes e cigarrinha no milho.

Os enfezamentos são doenças do milho causadas pela infecção da planta por microrganismos denominados molicutes (classe Mollicutes-Reino Bacteria), que são um espiroplasma (Spiroplasma kunkelii) e um fitoplasma (Maize bushy stunt). Há dois tipos de enfezamentos: a doença denominada enfezamento-pálido (causada por espiroplasma) e a doença denominada enfezamento-vermelho (causada por fitoplasma). A distinção entre as duas em campo com base apenas nos sintomas da planta, frequentemente, é impossível. Os molicutes invadem sistemicamente e multiplicam-se nos tecidos do floema da planta de milho e são transmitidos de plantas doentes para plantas sadias, pela cigarrinha Dalbulus maidis (Hemiptera: Cicadellidae).

A cigarrinha D. maidis é um inseto de cor branco-palha, podendo apresentar-se levemente acinzentada, com cerca de 0,5 cm, que se alimenta da seiva da planta de milho e realiza postura sob a epiderme da folha, preferencialmente na nervura central de folhas do cartucho da plântula. A infecção com molicutes ocorre na plântula de milho em estádios iniciais de desenvolvimento. Esses microrganismos patogênicos proliferam nos tecidos do floema e a planta apresenta os sintomas do enfezamento apenas na fase de produção. Esse inseto-vetor dos molicutes sobrevive apenas no milho e, habitualmente, migra de lavouras com plantas adultas para lavouras com plântulas recém emergidas.

Por: Embrapa

 

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Agronegócio

Avanços e desafios da conectividade

Avanços e desafios da conectividade – Editorial O Estado de S.Paulo
Avanços e desafios da conectividade – Editorial O Estado de S.Paulo
Mais conectividade no campo e nas escolas é fundamental para o desenvolvimento.

Se há muitas dúvidas sobre quais serão as mudanças legadas pela pandemia, ao menos uma é indubitável: a aceleração da digitalização das relações econômicas, sociais, políticas e culturais. Os últimos dados do IBGE sobre a conectividade revelam avanços em duas áreas capitais para o presente e o futuro do Brasil: o agronegócio e o ensino. O primeiro é a mais eficiente máquina nacional de produção de capital econômico, e, logo, a principal alavanca para a retomada do desenvolvimento. O segundo é a principal máquina de formação de capital humano, e, logo, a garantia de que esse desenvolvimento será sustentável.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, com dados de 2019, o número de domicílios que utilizavam a internet em 2018 (82,7%) aumentou 3,6 pontos porcentuais em 2019. Entre um ano e outro, o porcentual de estudantes com acesso à internet cresceu de 86,6% para 88,1%. A conectividade na área rural avançou mais do que na urbana.

Contudo, outro legado inevitável da pandemia é o aumento das desigualdades. E os dados do IBGE mostram que nesse aspecto a expansão da rede digital enfrenta grandes desafios. Apesar do progresso no campo, quase metade dos domicílios (44,4%) ainda não utiliza a internet, ante 13,3% nas cidades. As Regiões Norte e Nordeste também registraram os maiores avanços, mas ainda permanecem abaixo do porcentual das demais regiões.

Entre os 4,3 milhões de estudantes que não utilizavam o serviço em 2019, a maioria absoluta estava nas escolas públicas: 4,1 milhões de alunos não tinham acesso, ante 174 mil da rede privada. Além disso, enquanto no ensino privado 92,6% dos alunos tinham um celular disponível para acessar a internet, na rede pública eram 64,8%. No Norte e Nordeste as diferenças são mais expressivas.

Um dado relevante para a elaboração de políticas públicas é que o custo nem sempre é o maior impeditivo. Na verdade, apenas 18% dos quase 40 milhões de pessoas que não acessam a internet alegam ser o custo o fator decisivo para não ter acesso às redes. Outros 31,6% dizem não ter interesse e 43,8% alegam não saber navegar na rede. Isso sugere que, além das questões técnicas e financeiras, um dos maiores desafios para a expansão da rede digital no Brasil é a formação e a informação.

O ponto de partida para superar esse desafio é a escola. De pronto, a expansão do acesso à internet para os alunos é essencial para conter a evasão escolar, um problema já crônico antes da pandemia que se tornou agudo com ela. O investimento na conectividade escolar também é crucial para mitigar as disparidades acentuadas na pandemia entre alunos ricos e pobres. Mas esse investimento não é apenas emergencial: ele serve para introduzir alunos e professores às transformações irreversíveis da revolução industrial 4.0. Infelizmente, o presidente da República vetou integralmente o Projeto de Lei de Conectividade, que visava a assegurar conexão gratuita a alunos e professores da educação básica. O Congresso ainda pode derrubar esse veto.

Já para a agropecuária, a digitalização oferece imensas oportunidades para melhorar a competitividade, trazendo mais eficiência, produtividade e redução de custos. Mas à deficiência histórica de infraestrutura logística no campo veio se somar a falta de conectividade. Hoje só os grandes produtores conseguem investir em conexão, o que aumenta ainda mais as disparidades em relação aos pequenos. O desafio envolve políticas de estímulo às empresas de telefonia móvel no campo, a criação de linhas de crédito privadas e públicas, e parcerias público-privadas.

Mas também nesse caso muitas soluções não são implementadas por mera falta de informação. Especialistas de órgãos como a Embrapa ou o Sebrae apontam que várias novas ferramentas a bom custo estão disponíveis, mas são subutilizadas pelos produtores rurais por falta de conhecimento. O iminente processo de implementação da tecnologia 5G deveria ser aproveitado pelo poder público não só para modernizar a infraestrutura de conexão, mas para fomentar amplos programas de informação e formação digital.

Fonte: Brasil agro

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Agronegócio

Projeto transforma solos degradados em produção e renda para agricultores no Pará

Aumentar a produtividade da mandioca em um solo degradado, e ainda intercalar com milho, feijão caupi e outras culturas na mesma área, parecia impossível para agricultores da comunidade Lajedo II, assentamento a 60 quilômetros do município de Marabá, na região Sudeste Paraense. Mas a parceria da comunidade com a pesquisa e a extensão rural mostrou que nada é impossível quando se tem informação, tecnologia e vontade.

“Nas áreas com as boas práticas de produção, saímos de uma terra degradada, de pastagem, e no primeiro ano de cultivo saltamos de 12 toneladas por hectare para quase 30 toneladas de raízes de mandioca por hectare”, conta Arley Petrônio Martins da Silva, agricultor e técnico rural, morador do assentamento Lajedo II.

No local, os resultados do projeto Mandiotec, executado pela Embrapa Amazônia Oriental e financiado pelo BNDES, por meio do Fundo Amazônia, mostram que com tecnologias simples, boas práticas de manejo e a capacitação de comunitários e técnicos, é possível produzir mais e melhor na mesma área, por vários anos consecutivos, garantindo mais segurança alimentar, renda e menos pressão ao meio ambiente.

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O agrônomo Raimundo Brabo, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, conta que as  ações do Mandiotec na região iniciaram em 2019 com a instalação de quatro Unidades Demonstrativas (UDs) no assentamento. “Escolhemos Lajedo II por ter um histórico de referência em produção de mandioca e pecuária de leite na região”, conta o especialista. Mas o uso intensivo do solo, as queimadas sucessivas e a baixa qualidade das roças, vem trazendo prejuízos à produção.

Das 200 famílias que residem no assentamento, 25 toparam o desafio de participar do projeto e atuar nas áreas de demonstração, que funcionam como vitrines. O agricultor Ronildo Chaves Pedrosa Timóteo, que é presidente da Associação dos Produtores Rurais de Lajedo II, diz que o fogo é um vilão que degrada a terra e prejudica a produção. Então, ele continua, “pegar uma área já degradada e tornar ela produtiva foi a primeira vitória nessa batalha”, afirma.


Tecnologias simples e boas práticas de produção

As Unidades Demonstrativas instaladas em Lajedo II apresentaram aos agricultores dois sistemas de produção de baixo custo e com resultados surpreendentes: o Trio da Produtividade e o Sistema Bragantino. Neles foram utilizadas variedades de mandioca desenvolvidas pela pesquisa da Embrapa, com a BRS Poti, Manivão e Jurará, além de variedades selecionadas pela comunidade na própria região, como o Vermelhão e a Água Morna (macaxeira).

Boa semente, espaçamento e capinas
A maniva-semente é o galho da planta que serve como muda para o plantio. Escolher manivas-sementes mais produtivas é fundamental para uma boa roça.

O Trio da Produtividade é um conjunto de boas práticas para o cultivo da mandioca, que a partir de técnicas simples, como um arranjo espacial e capinas regulares associadas a materiais genéticos (manivas-sementes), de boa qualidade, possibilitam o aumento da produtividade.

“O sistema é destinado aos agricultores familiares que não dispõem de recursos para a compra de adubo, pois trata apenas da seleção da maniva semente, plantio no espaço de um metro por um metro e controle de plantas daninhas nos cinco primeiros meses da cultura”, explica o agrônomo Moisés Modesto, analista da Embrapa Amazônia Oriental.

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Correção de solo, plantio direto e consórcio 

Outra tecnologia empregada em Lajedo II é o Sistema Bragantino, que dispensa o uso do fogo, utiliza a tecnica de plantio direto, preconiza a correção do solo e adubação, e integra o plantio de mandioca a culturas alimentares, como milho e feijão. Na comunidade, os agricultores, com o apoio da equipe técnica, também inseriram no sistema abóbora e melancia, o que diversificou ainda mais a produção e contribuiu para a segurança alimentar dos agricultores e suas famílias.

Para o técnico e agricultor Arley Petrônio da Silva, “o sistema possibilitou um plantio mais adensado com maior aproveitamento da área, melhorou e diversificou a produção, trazendo mais possibilidades aos produtores locais”.

Mais produção e renda na ponta do lápis

Quando levou os resultados das Unidades Demonstrativas de Lajedo II para a ponta do lápis, o agrônomo Moisés Modesto se surpreendeu. “O Trio da Produtividade obteve uma produção de 34 toneladas de raiz de mandioca por hectare. A relação entre o custo de produção e a receita foi positiva. Para cada real investido na roça com o uso da tecnologia retornaram R$ 3,44 ao agricultor”, destaca o analista.

A conta também fechou positiva para o Sistema Bragantino: a produtividade da mandioca saltou de 12 para 29 toneladas por hectare e ainda teve a produção do milho. “A possibilidade de ter várias culturas ao mesmo tempo, na mesma área e por tempo indeterminado é o grande diferencial desse sistema”, afirma Modesto.

Os resultados de 2020 também envolveram capacitações e visitas técnicas para agricultores e técnicos da extensão rural, dia de campo e reunião técnica. E mais três Unidades Demonstrativas já foram implantadas em 2021.

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Desafios futuros

Outro resultado importante do trabalho, destacado pelo pesquisador Raimundo Brabo, é também a articulação da comunidade com a Secretaria de Agricultura de Marabá, que com as técnicas empregadas e a maior segurança na produção poderá trazer a mecanização até o assentamento Lajedo II. “Associar a mecanização ao uso de fertilizantes e boas práticas, pode elevar ainda mais a produtividade das roças, chegando a 35 toneladas por hectare”, relata o especialista. Isso significa um aumento de 42% na produtividade atual da mandiocultura no local e para a Mesorregião Sudeste Paraense.

Mas a comunidade ainda tem desafios, segundo o pesquisador Raimundo Brabo. Ele destaca a integração do cultivo da mandioca à pecuária leiteira, que é outra atividade importante em Lajedo II. “Conciliar a agricultura à pecuária é um desafio para garantir ainda mais a segurança alimentar e a renda das famílias”, afirma o pesquisador.

Para o agricultor Ronildo Chaves Pedrosa, o desafio é fazer com que outros agricultores do assentamento também adotem as novas técnicas de produção. “Pra mim, como presidente da associação, fazer com que todos os agricultores conheçam as áreas do projeto e levem essas práticas para dentro dos seus lotes é o maior desafio agora”, afirma. Mas ele acredita que os resultados positivos vão influenciar toda a comunidade.

Por: Notícias Agrícolas

Fonte: Embrapa Amazônia Oriental

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Soja

Soja: consórcio disponibiliza 2 novos genomas do fungo da ferrugem asiática

Com isso, os pesquisadores terão três genomas para aprofundar os estudos, aumentando a chance de encontrar soluções de combate ainda mais eficazes.

Os pesquisadores brasileiros terão três genomas sequenciados do fungo causador da ferrugem asiática na soja. Isso porque o consórcio internacional de pesquisa ASR Genome Consortium, do qual a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) participa, acaba de disponibilizar publicamente mais dois novos genomas de referência. Com isso, a pesquisa poderá se aprofundar nos estudos das variantes e tentar encontrar soluções ainda melhores para o controle.

O primeiro genoma foi sequenciado, montado e disponibilizado à comunidade científica em 2019. Com o avanço na consolidação de dados, os três genomas em conjunto, possibilitaram aprofundar o conhecimento sobre a variabilidade do fungo, assim como conhecer a organização de seus genes em vários níveis, por exemplo, identificando genes compartilhados e ativos durante o parasitismo, avalia a pesquisadora Francismar C. Marcelino-Guimarães, da Embrapa Soja.

soja ferrugem
Ilustração da ferrugem asiática da soja se propagando dentro dos tecidos das plantas e provocando a doença na soja.

“As informações obtidas dos três genomas de referência permitem uma elevada confiabilidade nos dados, além da possibilidade imediata de estudos comparativos em nível genômico. Os resultados da pesquisa possibilitarão maior compreensão dos alvos de ação no fungo, por um produto químico, ou mesmo o desenvolvimento de novas soluções que ajam de forma mais assertiva”, afirma Francismar.

Os genomas de referência foram coletados na América do Sul, região produtora de soja atingida pela alta agressividade da ferrugem da soja.

“O acesso a esta variabilidade permitirá ampliar a compreensão da elevada adaptabilidade e evolução deste fungo, auxiliando no entendimento das mutações que foram acontecendo em diferentes safras e o processo de resistência desses fungos aos fungicidas e, também aos genes de resistência presentes na soja”, comenta Francismar.

Membros do consórcio internacional

O consórcio é formado por 12 entidades públicas e privadas, de diversas localidades, e tem como premissa tornar público o acesso ao genoma do fungo causador da ferrugem e permitir seu uso para diferentes abordagens e pesquisas futuras.

Além da Embrapa, o consórcio tem como parceiros a Bayer, a fundação 2Blades, o Sainsbury Laboratory, as Universidade Alemãs de Hohenheim e de RWTH Aachen, o Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica (INRAE-França) e a Universidade de Lorraine (França), além do Joint Genome Institute (JGI, EUA), da Keygene, da Syngenta e a Universidade Federal de Viçosa (Brasil).

Por: Canal rural

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Pecuária

Relação de troca para produtor de leite piora

CIProdutor de leite precisou de 58,1 litros de leite para aquisição de 60 kg de mistura concentrada.

Imagem: Pixabay

O preço do leite ao produtor registrou nova queda em fevereiro e os insumos continuam subindo. Isso faz com que a relação de troca siga piorando. Segundo o Centro de Inteligência do Leite (CILeite), da Embrapa Gado de Leite, na média Brasil a cotação no mês passado fechou em R$1,99 por litro, recuo de 2,2% sobre janeiro. Na comparação anual, o preço nominal ao produtor ficou 40,3% acima do valor recebido em fevereiro de 2020.

No varejo, o preço da cesta de lácteos caiu 0,64%, puxado pelo leite UHT, único produto a registrar queda no mês (-3,3%). Em 12 meses, todos os lácteos registram altas, sendo as mais elevadas para o leite UHT e o leite em pó. De fevereiro de 2020 a fevereiro de 2021 a alta foi de 15,43%.

Apesar da alta anual nos preços do leite, os aumentos expressivos no milho e no farelo de soja continuam comprometendo a relação de troca leite/insumos. Em fevereiro, o produtor de leite precisou de 58,1 litros de leite para aquisição de 60 kg de mistura concentrada, alta de 32% em relação ao mesmo mês de 2020.

Por: Agrolink